Nem todo teto é abrigo,
alguns são peito, refúgio
onde a alma encontra seu leito.
Me despi das incertezas
para enxergar em mim
os sentimentos que me vestiam.
Acolhi cada afeto recebido,
na esperança de que não
tocasse apenas a pele,
mas alcançasse os lugares
mais profundos de mim.
Deixei que cada gesto me atravessasse,
como a chuva atravessa a terra seca,
fazendo nascer o que estava adormecido.
Não me poupei das marcas,
nem tentei fugir do que sentia,
de nenhuma emoção,
pois a intensidade embarca
sem pedir autorização.
Não chega devagar,
não pede licença,
não sabe morar na superfície.
Ela invade, faz morada
nos cantos mais escondidos,
revira o que encontra
e transforma o que toca.
Também faz nascer flores
onde antes era vazio,
transforma a dor em verso
e o silêncio em arrepio.
E, mesmo sabendo
que talvez eu não saísse inteiro,
escolhi sentir.
Porque há afetos que machucam,
mas também sabem curar;
há encontros que educam
e nos ensinam a amar.
Existem laços passageiros
que não vieram permanecer,
mas deixam rastros verdadeiros
que jamais irão morrer.
Nos apresentam novos caminhos,
uma versão desconhecida da vida,
e, entre espinhos e carinhos,
dão outro sentido à vida.
Sentimentos que valem a queda,
mesmo quando há cicatriz,
pois quem mergulha sem medida
descobre dentro de si a raiz.
Talvez seja isso que nos transforma:
a coragem de sentir tudo o que se diz,
mesmo quando não há garantia.
E, no fim dessa travessia,
entre a dor e o coração,
percebi que a intensidade
também é forma de salvação.
— Figueira
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